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A equipe da iniciativa Diálogos contra o Racismo esteve presente, no dia 12 de abril, no jogo entre Fluminense e Vasco, válido para a semifinal da Taça Rio. A idéia era divulgar a campanha “Mande um cartão vermelho para o racismo no futebol” e ouvir opiniões de pessoas dessas duas grandes torcidas sobre discriminação racial no futebol.
A primeira impressão que tivemos é que existe uma grande insegurança quanto à definição do termo ‘racismo’ e sua diferenciação com ‘preconceito’, ‘discriminação’, ‘xingamento’ ou ‘violência’, tanto dentro como fora dos estádios. Em geral, termos como ‘pó-de-arroz’ ou ‘bacalhau’ foram consideradas brincadeiras válidas, mas a percepção muda quando os(as) torcedores(as) são questionados(as) sobre o grito: 'Ela, ela, ela, silêncio na favela!'. A maioria detectou nisso um preconceito ou até racismo.
Ao final das entrevistas, pedimos às pessoas que respondessem a pergunta ‘Onde você guarda seu racismo?’, o que deixou muitas perplexas. A maioria se declarou não-racista e gostaria que as pessoas racistas deixassem o racismo bem guardado em lugar não acessível – corroborando com as pesquisas já realizadas sobre racismo, a maioria acredita que no Brasil existe racismo, mas diz que não o pratica. Algumas assumiram que todo mundo tem algum preconceito e que é muito difícil controlar os impulsos, as palavras, os gestos, mas que é preciso tentar.
Martin Christoph Curi Spörl
Luciano Cerqueira
Segue a transcrição de alguns depoimentos:
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Entrevistado 1.
Você acha que existe racismo no futebol brasileiro?
“Existe sim, mas nem tanto como lá fora. Na Europa é bem pior. Pelo fato de que aqui jogam muitos negros já é normal pra gente. Então, como tem brancos e negros na mesma quantidade, não existe tanto racismo como em outros países”.
Como você avalia termos como ‘pó-de-arroz’ ou ‘bacalhau’?
“Acho que não têm muito a ver com racismo. Já passou essa época. Nesse caso, acho que virou um apelido na torcida em geral. Acho que a maioria das pessoas nem sabe o significado de pó-de-arroz”.
Como você avalia o grito ‘Ela, ela, ela, silêncio na favela!’?
“É, confesso que é racismo. A gente grita mais por gozação da torcida. Não deixa de ser racismo, mas é mais brincadeira. Não podemos ser hipócritas, a maioria dos cariocas é flamenguista e a maioria dos cariocas é pobre e mora na favela. Então, apesar de ser uma gozação, acho, que é uma coisa errada brincar assim com uma pessoa”.
Onde você guarda seu racismo?
“Não sei. Acho, que não sou muito racista não, porque tenho negro na família. Então, quando tem racismo eu sinto na pele. Não por ser negro, mas por ter negros na família”.
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Entrevistado 2.
Você acha que existe racismo no futebol brasileiro?
“Acredito que sim, ainda”.
Como ele se manifesta?
“Bom, preconceito é sempre ruim, né? Não só racial, mas também de outras formas. Porque existem vários tipos de preconceito. Mas nós temos de combater isso. Não sei ainda de que forma”.
Onde você guarda seu racismo?
“Eu acho que não tenho”.
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Entrevistado 3.
Você acha que existe racismo no futebol brasileiro?
“Existe sim, acredito que sim”.
Como ele se manifesta?
“Qualquer tipo de crítica ou sacanagem não deixa de ser uma forma de racismo. Muitas vezes, é a maneira de comemorar um gol pelo torcedor ou jogador”.
Como você avalia termos como ‘pó-de-arroz’ ou ‘bacalhau’?
“Também é um racismo, né? A mesma coisa é quando se chama um flamenguista de “mulambada” ou tricolor de viado. E por aí vai. Não deixa de ser um racismo, mas num tom de brincadeira. Quando se torna agressão, aí é uma coisa bem pior. Aí, tá errado”.
Onde você guarda seu racismo?
“Não guardo racismo. Boto para fora mesmo. É para sacanear mesmo. Sou sacaneado, então tenho de sacanear. Mas sempre sem violência”.
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Entrevistado 4.
Você acha que existe racismo no futebol brasileiro?
“Não”.
Como você avalia termos como ‘pó-de-arroz’ ou ‘bacalhau’?
“É uma brincadeira. Faz parte do jogo”.
Como você avalia o grito ‘Ela, ela, ela, silêncio na favela!’?
“Saiu uma pesquisa no jornal que 47% dos flamenguistas moram na Favela. Portanto, é baseado em pesquisa. Não é racismo”.
Onde você guarda seu racismo?
“Em lugar nenhum. Não sou racista”.
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Entrevistado 5.
Você acha que existe racismo no futebol brasileiro?
“Com certeza que não”.
Como você avalia termos como ‘pó-de-arroz’ ou ‘bacalhau’?
“Ah, é uma tradição. Tem história. É uma brincadeira que faz parte do esporte. Hoje, tem um outro contexto. Antigamente, teve um outro contexto porque teve um jogador com pele escura que passou talco. Mas hoje em dia é brincadeira, não tem mais nada a ver com aquilo”.
Como você avalia o grito ‘Ela, ela, ela, silêncio na favela!’?
“Mas isso também tem uma outra conotação. Xingar e brincar faz parte do jogo. É tradição. Começa e termina aí dentro do estádio. Porque tem muito flamenguista na favela, mesmo que não se brinca com isso”.
Onde você guarda seu racismo?
“Bem recalcado. Bem reprimido. Acho que ele tá lá dentro, todo mundo tem um pouco. Acho que a gente tem que reprimir ele até o ponto de ele não existir mais, isso vai ser bom. Tudo mundo tem seus preconceitos. Temos de ser mais liberais, mas se todo mundo fosse tratado igual seria melhor”.
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Entrevistado 6.
Você acha que existe racismo no futebol brasileiro?
“Em certos aspectos, sim. Mas não nesta forma alarmante como na Europa. Mas no Brasil em certos níveis existe”.
Como ele se manifesta?
“Acho que se manifesta exatamente em não chamar tanto a atenção quanto na Europa. Se manifesta nas divisões de base onde a imprensa não está tão integrada. Não tá captando tanto. Na Europa, ele se manifesta entre os profissionais, então chama mais a atenção”.
Como você avalia o grito ‘Ela, ela, ela, silêncio na favela!’?
“Não considero racismo. Até porque favela não tem necessariamente gente de cor. Tem gente de todas as raças. Isso é mais uma provocação da torcida, uma brincadeira”.
Onde você guarda seu racismo?
“Em lugar nenhum. Não tenho. Tenho amigos negros, japoneses e de todas as raças. Graças a Deus. Eu sou brasileiro. Como eu vou ser racista? Um país que tem a maior miscigenação do mundo”.
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